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Desesperadamente Vivo

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Montoya, um ex-atleta olímpico tetraplégico começa o tratamento fisioterápico que mudará o rumo de sua vida. Rico e hábil na arte da escrita, ele permanece conectado ao mundo através do computador acionado pelo que lhe resta de movimentos em um dos dedos da mão direita. A deficiência motora avança por um lado, e os sentidos se aguçam por outro. O corpo paralisado torna-se hipersensível, a ponto de interpretar, pela natureza do toque, os sentimentos ocultos da fisioterapeuta. Fascinado, ele mergulha fundo nesse universo redentor, tentando passar a ela uma energia que ele imagina receber de volta com a mesma intensidade erótica. Inicia-se um assédio virtual que dá origem a essa comovente história sobre a relação umbilical entre o poder da fantasia e o irresistível apelo da transgressão.

 

Trechos do Livro

Ela tinha uma implicância doentia com a superficialidade dos interesses femininos, sobretudo com os assuntos recorrentes sobre homens e seus derivativos, sem falar nas casadas e suas intermináveis histórias sobre filhos doentes e maridos problemáticos, quase sempre pobres, deprimidos ou enfieis. Gentinha ordinária.

Felizmente havia as descasadas pelas quais ela nutria alguma simpatia, pelo menos eram mais práticas e objetivas na sua estratégia com relação aos homens, quase todas movidas por sentimentos mercenários bem distantes do romantismo ingênuo das mulheres jovens e solteiras.

O fato é que ela conhecia perfeitamente os meandros da rede, as possibilidades, os riscos, os limites a serem respeitados e, movimentando-se com facilidade nessa complexa coreografia, chegara à estupenda marca dos dois mil amigos virtuais. Havia os gays, os chatos, os interessantes, classificados em disponíveis e indisponíveis, a maioria não disponível e, finalmente, os deslumbrados, bichinhos de estimação que ela mantinha circulando ao redor como cavalinhos prontos para deixa-la montar ao mais discreto movimento do chicote.

Finalmente ela se vai, deixando atrás de si um rastro de aromas complexos que me enchem as narinas e sob a influência dos quais irei meditar pelas próximas horas, pensar na sua bunda bem feita, no seu olhar meigo, nas suas mãos, talvez escrever um pouco, brincar com palavras, dizer alguma bobagem que a faça feliz por conta dessa banalidade que é sentir-se desejada.

Pobres mulheres expostas a essa aflição interminável em relação ao desejo alheio. Eu a desejo, ela não sabe, mas sente, sem perceber, então sabe que eu a desejo, mesmo sem saber.

Assim são as mulheres, viciadas no amor, amam explicitamente, muitas vezes secretamente e, nas horas vagas, amam os sonhos, até objetos que não existem. Essa é a equação mais perfeita da imperfeição feminina, o vício, o insaciável desejo de amar a qualquer preço.

Pouquíssimas mulheres maltratam seus machos cambaleantes, muito pelo contrário, é na desgraça que elas os abraçam com mais força, tentam reerguê-los, provar a si mesmas que ainda têm um homem dentro de casa. Sem um homem dentro de casa para atazanar suas vidas, as mulheres nunca seriam completamente felizes.

Sim, porque depois de atrair os homens com tanta facilidade, as mulheres caem na inevitável tentação de ficar com um único deles por tempo indeterminado, coisa que a maioria dos homens acaba por rejeitar. Aliás, esse é o contraponto masculino ao poder feminino. A facilidade com que o homem abandona a mulher que o seduziu depois que ela lhe entrega a arma usada no jogo. O sexo.

Ela pousa as mãos na minha pele como um pianista no início do concerto, imagino estar no centro de um palco ouvindo o movimento das poltronas, das molas que cedem ao peso de pessoas que se acomodam, da respiração coletiva. Alguém tosse baixinho. O ruído começa a diminuir progressivamente até o silêncio se fazer completo. Eu ouviria uma mosca voar nesse silêncio maravilhoso que existe ao nosso redor.

Então acontece uma inesperada trégua no seu vazio existencial, uma colisão explosiva da fantasia virtual com a realidade percebida por suas mãos sensíveis, uma energia que a embriaga com a sensação de que era amada por um homem de verdade.

O script que ela encena, porém, é incompleto, a atriz não aflora, o personagem oculto ressona dentro da toca à espera do verdadeiro cenário, do terreno fértil onde lançará a semente do seu projeto. E que projeto será esse? Será ela uma caçadora implacável, um bicho faminto, um dragão romântico? Imagino que ela seja tão linda, meiga, brava, sensível quanto parece ser, mas é preciso que as cortinas se abram e ela suba no palco para encenar o seu ato. Então, sim, poderei observá-lo na zona de caça, entender a dimensão do seu apetite, o tamanho da goela, saber se, de fato, é um bicho caçador ou uma fêmea de filhotes.

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