O AUTOR NEY AMARAL

Foto Ney Amaral

Alguém pediu uma breve biografia para colocar no site e logo me ocorreu dizer que sou médico, afinal, é o que fiz durante a maior parte da vida. Em seguida, porém, percebi que a medicina cedera espaço para várias outras atividades. Por força da complexidade da minha especialidade médica tornei-me empresário e para dar sustentação a esse trabalho passei por um treinamento que incluiu o mestrado em administração. Mas havia outras coisas também, menos complexas, mas igualmente desafiadoras. Quebrei a mandíbula numa navegada, mas voltei a navegar. Em 2010 velejei de Cape Town, na África do Sul, à Bahia como cozinheiro de bordo de um veleiro, sem nunca repetir um único cardápio durante os vinte e oito dias da travessia. Essa não foi fácil, confesso. Mas, logo em seguida, abandonei a cozinha para me dedicar a um projeto que eu desenvolvera justamente durante a travessia. A elaboração do meu primeiro livro, Cartas a uma Mulher Carente, lançado em março de 2010. A partir daí, tornei-me um catador de lixo. Verdade! Catador de lixo mesmo, porque livros são como os quadros do Vic Muniz feitos no lixão do Gramacho. O artista, assim como o escritor, revira as profundezas do lixo em busca do material que será transformado em arte. Dentro desse saco de gatos há otimistas, pessimistas, trágicos, hilários, cínicos, enfim, há todo o tipo de escritores e de livros, mas a fonte do material de onde saem os livros é quase sempre o mesmo: o lixo. Nem por isso os livros deixam de ser poéticos, comoventes, ou mesmo engraçados. A graça, a comoção e a poesia são boa parte do lixo que jogamos pela janela sem o menor cuidado, sobretudo quando atrapalham nossa relação com um mundo cada vez mais asséptico e organizado pelo projeto antropológico comportado dos homens bons. E é por isso que os escritores catam, separam, compactam e finalmente filtram esse lixo através das páginas dos livros. É para que o insustentável brilho das almas bem comportadas não ofusquem, de vez, o pouco que ainda nos resta de humanidade. Então comecei a fazer livros de fotografia. Já tenho cinco deles prontos. Mas o que realmente importa na minha biografia é que encontrei a Beatriz que me levou até o Olavo, Pedro e Felipe. Mas essa é outra história...

Por hora, gostaria de apresentar-lhes o Desesperadamente Vivo, meu novo livro elaborado com o lixo compactado que vou catando por aí.

Ney Amaral

 

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